Jogos
à parte, com o baralho a cigana prevê
o futuro; o mágico faz seu espetáculo;
o educador ensina; o psicólogo aplica
testes. Há o Baralho de quarenta cartas,
em que o valete é maior do que a dama,
e o de 52 cartas, que é o tipo mais comum.
Dados confirmados afirmam que três quartos
da humanidade usam algum tipo de baralho, para
algum fim. Mas afinal, como tudo isso começou?
Pois bem, façam suas apostas.
Para
saber onde o baralho foi criado, escolha uma
carta: o imperador chinês, o faraó
egípcio, o xeique árabe ou o marajá
indiano. Agora, para saber como ele chegou a
Europa, tire mais uma carta entre outras três:
o guerreiro sarraceno, os cruzados ou o aventureiro
cigano. Muito bem! Pois fique sabendo que quaisquer
sejam as cartas tiradas, você acertou,
pois o baralho surgiu com formas diferentes,
em diferentes épocas e culturas. E acabou
chegando à Europa também por mãos
diferentes.
Teria sido inventado
na China, para agradar uma das namoradas do
imperador Sehun-Ho, segundo
velhos relatos chineses. Mas não há
unanimidade sobre isto. O inglês
T. F. Carter, no livro The Invention
of Printing in China (A Invenção
da Impresa na China), publicado em 1925, faz
referências aos jogos de cartas como sendo
praticados já no ano de 969 para prever
o futuro.
Se, por um lado,
não há consenso a respeito destas
datas, por um outro lado não há
muita dúvida sobre o passado religioso
ou advinhatório das cartas. O antigo
baralho indiano, por exemplo, tinha dez naipes,
cada um representando uma das dez encarnações
da entidade Vishnu. Essa ligação
com o sobrenatural também fica clara
quando surgem alguns dados históricos.
Catherine P. Hargrave, que em 1930
publicou sua História do Jogo de Cartas,
diz que no século XIV, os soldados sarracenos
introduziram no sul da Itália um jogo
de baralho chamado "naib"-
que em herbeu quer dizer "feitiçaria"-
e que pode também ter sido a origem da
palavra "naipe" em português
e espanhol.
Religioso ou
não, quando o baralho chegou à
Europa entre os
séculos
XIII e XV, o prazer de jogar
já existia. As apostas em jogos de dados
(feitos em pedra ou osso), eram conhecidas em
diversos países. O baralho vinha somar-se
aos jogos anteriores, conquistando adeptos,
certamente pelo fascínio que possui até
hoje, somado ao quase infinito número
de combinações matemáticas
possíveis encontradas num prático
maço de cartas, em tamanho de bolso.
Do Oriente, fosse
da China ou da Índia, chegaram na Europa
os baralhos numerados e divididos em naipes.
Sabe-se que eram 56 cartas com quatro figuras:
o rei, a rainha, o cavaleiro e o pajem. As demais
cartas eram numeradas de um a dez e os naipes
já eram quatro, como nos baralhos de
hoje, inspirados nos quatro naipes chineses,
e não nos dez indianos.
Foi então
que, na Itália, surgiu o primeiro baralho
fabricado na Europa: o Tarô. Eram (e ainda
são) 22 cartas, das quais 21 numeradas
em algarismos romanos, que representavam as
forças naturais, os vícios e virtudes
da humanidade. A 22a carta, il matto ( o "louco"
em italiano), representava a liberdade, não
tinha número, e acabou dando origem aos
coringas de hoje. Entre os anos de 1300 e 1400,
juntando as 56 cartas do baralho asiático
com as 22 cartas do tarô, os europeus
passaram a jogar com um baralho de 78 cartas,
muito popular na época, chamado Tarocchi
na Itália, Tarau na
França e Tarok na Alemanha.
Em seus primeiros
tempos, o baralho era um passatempo para poucos:
as figuras eram elaboradas e pintadas à
mão, o que o tornava extremamente caro.
Porém, já no começo do
século XV, os xilófragos
começaram a baratear-lhe a produção,
depois de perceber que seu grande mercado estava
na imprensão e venda de baralhos, que
se popularizavam muito depressa. Os naipes foram
padronizadados em paus, copas, ouros e espadas
na França, Itália e Espanha, exceto
na Alemanha: lá os naipes eram a folha,
o coração, o sino e o pinhão.
Surgiram o baralho espanhol e o baralho italiano
de 40 cartas, até hoje usado aqui no
Brasil para jogar truco ou escopa. Surgiram
também os baralhos alemães de
36 ou 32 cartas (do 7 ao ÁS, passando
pelas figuras), que é o mesmo baralho
usado para o pôquer no Brasil, diferentemente
do baralho inteiro usado nos Estados Unidos.
Como
não poderia deixar de ser, pelas suas
próprias origens místicas, o baralho
sempre foi cercado de muita superstição
- superstição que leva até
hoje, por exemplo, um jogador que perde com
cartas novas exigir que se retorne o jogo com
as usadas. Outra preocupação dos
jogadores sempre foi a segurança; para
evitar fraudes ou "roubos", os fabricantes
também não ousaram mudar muito
as costas das cartas.
Foram sentimentos
como esse que talvez tenham impedido uma evolução
maior no design dos baralhos. Temendo afastar
a desconfiada clientela com inovações
em demasia, os fabricantes se mantiveram extremamente
conservadores nas suas figuras de reis, damas
e valetes. Neste século, porém,
houve uma explosão: heróis nacionais,
mulheres nuas, tentativas de desenhos modernos,
personagens da história e do cinema e
até mesmo experiências de reconhecida
qualidade artística, passaram a figurar
nas cartas. Um baralho da marca Europa, fabricado
na Espanha nesta década, recupera, em
detalhes, os trajes da época da Renascença
e vem acompanhado de um folheto, assinado pelo
catedrático da Escola Superior de Belas
Artes de Madrid, Professor Teodoro Miciano,
explicando as vestimentas ( diferentes para
cada uma das doze figuras ) e seus pormenores.
Na antiga União Soviética, tentaram
trocar valetes, damas e reis por heróis
da Revolução de 1917, mas não
deu certo.
De
qualquer forma o baralho tornou-se um bom negócio
até para os governos. Na Espanha e na
França, por exemplo, a fabricação
já foi monopólio estatal. Os tentáculos
do Estado vieram mesmo a influir no próprio
desenho das cartas - a Inglaterra, que até
1828 cobrava meia coroa de imposto (muito dinheiro
na época) por baralho vendido, exigia
que o selo comprovante do imposto pago fosse
impresso no ÁS de espadas; isso gerou
uma tradição pela qual até
hoje, mesmo não existindo mais o imposto,
o ás de espadas leva a marca do fabricante
ou outro distintivo que o diferencia de todas
as outras cartas. Hoje, o baralho é encarado
muito mais como um passatempo familiar do que
um instrumento de jogatina - do bridge ao rouba-monte,
do buraco à mágica.